Réu por assassinato de Bruno e Dom, “Colômbia” é peça central de um esquema criminoso na Amazônia

Justiça Federal do Amazonas aceita denúncia contra acusado de liderar crimes na tríplice fronteira

Fala Amazonas

A Justiça Federal do Amazonas tornou réu nesta segunda-feira (21) o homem apontado como mandante dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, crimes que chocaram o país e o mundo em 2022. Rubén Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, é acusado de chefiar uma organização criminosa com atuação transnacional na região do Vale do Javari, no extremo oeste amazonense.

A decisão da Justiça ocorreu após o Ministério Público Federal (MPF) apresentar denúncia sustentada por um conjunto de provas obtidas ao longo de três anos de investigações: ligações interceptadas, escutas ambientais autorizadas, depoimentos e materiais apreendidos. Segundo a Polícia Federal, “Colômbia” mantinha contato direto com os executores dos homicídios e teria fornecido recursos, munições e embarcações utilizadas no crime.

Crimes em resposta ao trabalho de defesa dos povos indígenas

O caso ocorreu no dia 5 de junho de 2022, entre as comunidades de São Rafael e Atalaia do Norte, no interior do Amazonas. Bruno e Dom faziam uma expedição de campo para documentar iniciativas de proteção ambiental e territorial em áreas indígenas. A atuação de Bruno, que já havia sido alvo de ameaças por denunciar pesca predatória e invasões ilegais, foi, segundo a PF, o principal motivo da retaliação que levou à sua morte.

Os corpos das vítimas foram encontrados dez dias depois, com sinais de execução, esquartejamento e queima. Segundo os laudos periciais, Bruno foi alvejado por três disparos e Dom por um. Ambos atuavam de forma independente e voluntária em prol da proteção dos povos isolados e da integridade da floresta amazônica.

Organização criminosa agia com estrutura e apoio logístico

A denúncia do MPF descreve “Colômbia” como líder de um esquema criminoso que operava entre Brasil, Colômbia e Peru, com foco na exploração ilegal de recursos naturais, como a pesca e a caça em áreas protegidas. A quadrilha utilizava barcos e documentos falsos para driblar fiscalizações e, conforme as apurações, ocultava drogas em cargas de pescado transportadas na região da tríplice fronteira.

Mesmo preso desde dezembro de 2022, Villar nega envolvimento com os homicídios. Sua defesa afirma que as acusações carecem de provas diretas. No entanto, a Justiça entendeu que há elementos suficientes para a abertura de ação penal, apontando-o como responsável por coordenar e financiar as ações do grupo envolvido no crime.

Vale do Javari: território sob pressão

O caso evidencia a complexidade dos desafios enfrentados na região do Vale do Javari, que concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do planeta. A atuação de grupos criminosos, a fragilidade da fiscalização e a omissão prolongada do Estado tornam o território palco de violência sistemática e crimes ambientais graves.

Além de “Colômbia”, outros oito acusados já foram denunciados por participação direta ou indireta nas mortes e na ocultação dos corpos. Parte deles já está presa, enquanto outros aguardam julgamento sob medidas restritivas.

Justiça sob vigilância internacional

A repercussão global do assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips expôs a vulnerabilidade das políticas de proteção à Amazônia e seus defensores. Organismos internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vêm acompanhando os desdobramentos do caso e pressionam por responsabilização completa — incluindo a condenação de mandantes e financiadores.

Três anos após o crime, a pergunta que ecoa do Vale do Javari a Manaus é direta: a justiça brasileira será capaz de garantir que crimes contra quem protege a floresta não fiquem impunes?


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