Cheia histórica no Amazonas fecha escola ribeirinha e força alunos a retomarem aulas por celular

Realidade de centenas de famílias é atravessada pelas águas enquanto a educação se reinventa na floresta

Por Fala Amazonas

Na comunidade Nossa Senhora do Livramento, às margens do Rio Amazonas, a rotina escolar virou correnteza. Com o avanço das águas, a Escola Municipal São João foi obrigada a fechar as portas — não por escolha, mas por sobrevivência. A cheia, que já atinge níveis alarmantes em 2025, isolou a comunidade e interrompeu o direito básico à educação presencial. Diante disso, professores e estudantes agora se conectam como podem, por celulares, em um novo ciclo de aulas remotas.

O cenário repete um drama amazônico que se torna cada vez mais frequente. A cada cheia, estruturas frágeis e esquecidas pela urbanidade afundam na lama do improviso. A diferença, este ano, é o esforço conjunto da Secretaria Municipal de Educação de Itacoatiara, que adaptou o modelo pedagógico para manter o vínculo com os alunos — mesmo que à distância.

Aulas em redes, celulares em canoas

Para seguir aprendendo, os estudantes da São João agora assistem aulas por WhatsApp, com material enviado por educadores que se revezam em plantões pedagógicos. Os encontros acontecem nas poucas áreas secas da comunidade ou, em muitos casos, dentro das próprias casas, parcialmente inundadas.

“É uma reinvenção diária. A cheia leva o chão da escola, mas não arranca nosso compromisso com o futuro dessas crianças”, diz a professora Marlene Souza, que há mais de uma década ensina em comunidades ribeirinhas de Itacoatiara.

Enquanto a cidade tenta conter os estragos da água, o esforço silencioso de professores, alunos e pais demonstra a resiliência de quem vive entre a floresta e os rios. Cada mensagem de áudio enviada, cada vídeo assistido com sinal oscilante, é um ato de resistência pedagógica.

Emergência climática e invisibilidade crônica

Dados da Defesa Civil do Amazonas confirmam: 2025 registra uma das maiores cheias da última década. Especialistas atribuem o fenômeno ao aumento das chuvas, intensificado pelas mudanças climáticas globais. Com isso, municípios do interior — como Itacoatiara — estão entre os mais afetados, com dezenas de comunidades isoladas e famílias desabrigadas.

Mas não é apenas a força da natureza que ameaça a educação ribeirinha. É a ausência crônica de políticas públicas estruturais. Escolas vulneráveis, internet instável e falta de transporte escolar adaptado compõem o retrato de um sistema que ainda não compreendeu completamente a geografia da Amazônia.

O que a cheia revela sobre o Brasil profundo

A situação em Livramento vai além de uma escola inundada. Ela revela o abismo entre o discurso e a realidade, entre o mapa e o território. Mostra que, enquanto se debate inteligência artificial e futuro digital nos centros urbanos, milhares de crianças amazonenses ainda enfrentam dificuldades para ter uma aula simples em meio à cheia.

“A floresta ensina, mas é preciso escutá-la”, afirma Renata Andrade, secretária de Educação de Itacoatiara. Segundo ela, o município estuda ampliar o uso de escolas flutuantes e parcerias para garantir conectividade nos próximos anos.

Por ora, o ensino segue como pode: flutuando.

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